segunda-feira, 9 de novembro de 2009
domingo, 25 de outubro de 2009
terça-feira, 13 de outubro de 2009
domingo, 4 de outubro de 2009
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Novo site com o portfólio de Patrícia Cividanes
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
quinta-feira, 30 de julho de 2009
domingo, 28 de junho de 2009
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Blog do Antro

segunda-feira, 1 de junho de 2009
Única paixão
Uma paixão exasperada por um vocabulário-paixão. Já cansada. Tímida. Saturada. Que tem no fígado uma moléstia insistente. Que tem no modo de se expressar uma indolência incurável. Paixão que não pode ser como as outras. E devo começar assim para abandonar a ternura do toque carinhoso, sensual. Frase a frase, cheiro a cheiro, e a consciência teimosa que sabe que o olho não foi feito para durar num outro olho. O avesso deste começo-paixão não é para justificar ao longo do texto o ressurgimento de uma paixão ideal, que se vale da dor do começo para se convencer depois como doce e bela. Esta paixão existe assim mesmo, dessa maneira, quer dizer, à minha maneira, às avessas, e existirá até o fim dos meus dias, e no limiar de um suspiro interrompido, e no começo deste começo-paixão. Ela não se nega como paixão, senão o começo seria: enxotado do seio tépido da mãe, surgido da potência de um vômito torrencial, nascido, enfim, para não viver uma grande paixão. E não foi assim. Sigo aqui, ainda, mesmo que pelo avesso, respeitando o vocabulário-paixão, e se no final a paixão ressurgir bela e vencedora, como na história pobre do filme, e pequena do herói, ainda hão de se lembrar que o olho não dura num outro olho. E isso é tudo. Ademais, esta paixão de agora acorda de manhã cedo com certo enjoo de estar lado a lado. Formigamento na ponta do dedo do pé esquerdo. Sonhos intranquilos. Corda vocal gasta, ferida pelo pouco que declarou. Costelas corroídas num desenho de sangue evocando gemido abafado que vibra em quarto escuro. Gengiva escaldada. É preciso notar que carne de lábio não é infinito regozijo, pois quando pétrea, fria em seu estado de morta, não pode devolver calor nem baba com gosto de fruta do pé esquerdo. Nem bem tresloucada paixão, já vira paixão trespassada. Eis por que eu não posso mais dar conta de uma paixão normal, bela e vencedora: certo de que ela dura ao menos o tempo da poesia, investirei nesta expressão. E depois do poema confessado, ainda terei que admitir com vergonha certas consultas apressadas no dicionário, pois terei confundido sugestivo vocábulo, assustando o meu destinatário. A paixão-consulta está disseminada, e que pena quando ela faz perguntas e só tem silêncio no outro lado do aparelho. Depois disso, nem animal de esgoto, se é que pode existir estado mais baixo que esse. Nem animal desprezado pelos companheiros de existência. E sim, animal que não dispõe mais da razão, e se alimenta dia a dia da sua bílis fétida, lambendo a própria pústula com a gratidão dos viciados. Roto, de calça arriada em praça pública, apontado por todos, escarrado pelos meninos que colocam fogo em seu cu, e sentenciado pelas senhoras de veneno aparente.
Quando uma paixão escondida, fundo de poço de uma, com terra batida e um guardião em cima é somente paixão escondida, da luz evitada, preservada do vento, protegida da sorte, encerrada e soturna, uterina e enterrada, é paixão escondida porque é tumor de paixão. A minha não escondo mais, não para fugir do tumor, pois isso talvez já não dê mais tempo, mas porque resolvi gritar alguma coisa para o mundo.
Da primeira já não me lembro, mas não devia ser surrada e abatida como esta de agora. Devia ser leve, com faces rosadas, suspensório e lição de colégio. Ansiedade incontida, projetando do peito a luz da Virgem Maria e a candura da meninice. Medo verdadeiro da morte do pai, machucado roçando a calça depois do tombo, buraco de dente tapado por milho verde da esquina, soluço de choro. Devia ser profusão dos preparativos para o baile, vaidade, passo ligeiro na rua e rompimento com o mundo. Punho doído da escrita. Ingênua. Sono grande pela manhã. Sono grande pela madrugada, mas madrugada em claro, tocando a si mesmo. O resto não me lembro, por isso não conto essa como uma que tive.
A minha paixão de agora já está corroída pelo tempo, e existe por pura insistência, e existirá até o fim dos meus dias. Falta pouco. De tudo, não poderão dizer que não vivi, pois eis a prova que vivi longos dias: apaixonado por um urubu pude preencher o meu peito. E chamo isso de paixão de agora porque ainda posso sentir certo gosto em minha boca. Por isso paixão de agora, mas foi em outros tempos, recentes até. Riam se vocês quiserem seus idiotas. Balancem estas panças gordurentas, se as tiverem, e engasguem com a própria maledicência de tanto rir. Idiotas.
Sabe-se que os urubus planam no ar desenhando esferas no céu distante. Animais que esperam a putrefação da carne surgir no chão como acontecimento natural da nossa condição. E depois comem sem esforço ou culpa. Apenas esperam a morte para cumprir seu dever no mundo. Assim que contei os meus dias nos últimos anos. Esperando o momento puro e sutil em que a carne não respondesse mais, por estar morta. Falta pouco, mas ainda não. Sempre suspeitei que ainda gozo da vida simplesmente por ter sido esquecido, e que, mesmo com o corpo gasto e abatido, permaneço aqui por algum motivo que escapa à minha compreensão. Tanto faz. Acredito hoje, e já acreditava na época, que foi por conta da minha carne em putrefação que atraí a atenção de determinados urubus, mais especificamente de um. Não que eu sentisse o meu cheiro de podridão. Cheiro ruim sim, por aversão aos banhos, mas não de putrefação. Acontece que o olfato apurado dos bichos já detectava a transformação precoce do meu organismo. Eu nunca me espantei com a possibilidade de ser uma espécie de morto-vivo. Pelo menos foi assim que pensei na época e penso hoje sobre o porquê da aproximação. Num dos banhos de sol comecei a dar conta da sondagem, no começo sutil, depois mais explícita. Pés voltados para o alto, mãos espalmadas no chão, as costas estendidas no cimento grosseiro, peidos esporádicos, joelhos levemente arqueados e o ódio que transbordava em resmungos por estar ali. Esses eram os meus banhos de sol. Fixava a minha atenção entre a unha encravada na ponta do dedo do pé esquerdo e o firmamento, e confesso que, mesmo com a imagem infinda do céu à minha frente, e da unha encravada, nunca pensei em nada que fosse digno de nota. Logo, pontos pretos. Não eram estrelas, pois, ao que me parece, se não me falha a memória, só aparecem à noite. Estes se moviam. Faziam círculos. Movimento harmonioso, fluido. Eram aves. Investigavam um pouco, deviam tirar certas conclusões, e já iam embora. Esta coreografia se demorava durante os meus banhos. Eu já tinha o que pensar, afinal. Ou apenas observar, para matar o tempo.
Foi um que insistiu, pegou confiança. Um dia pousou atento na lajota. Dorso arqueado, desconfiado e tímido. Me analisou. Entre voos breves e saltos, destes de aves, me circundava. Os olhos vermelhos não paravam nos meus. O bico prospectando as próprias penas, a varanda, e as asas batendo, mas não com força de voo. Era o meu cheiro. Ele sabia que dali tiraria algum proveito. Ofereci o meu dedão do pé. Ele hesitou. Ofereci novamente, agora mais comedido. Experimentou o meu dedo. Leves bicadas, testando a textura. À medida que ia ganhando confiança investiu mais ferozmente. Era uma diversão animalesca. Queria ultrapassar a pele e chegar ao que verdadeiramente lhe interessava: a minha carne estragada. Um riso que antes nunca havia experimentado tomou o meu rosto, agora corado. A minha presença já tinha uma utilidade, e deduzi por um breve instante o que poderia ser a felicidade. O meu verdadeiro estado reconhecido, reclamado por alguém que realmente se interessava por ele. A minha podridão era louvada por quem entendia do assunto. Mexia os meus pés suspensos no ar e a criatura os seguia livre de maiores pudores. Uma dança era ensaiada. Boas gargalhadas naqueles tempos, desta paixão de agora. Os dias seguiram. Nos encontrávamos sempre, e nos dias de chuva restava a saudade, a dúvida. Ele foi ganhando as partes do meu corpo com órgãos mais expressivos, de deterioração mais elevada, sempre com leves bicadinhas, como que saboreando sem saborear de fato. Por vezes ficávamos lado a lado, sem ter o que dizer, o seu cheiro me enjoava, falta de costume desta convivência, talvez. Dormíamos longos períodos e, ao acordar, dávamos conta da presença um do outro, virávamos para o outro lado, nos acomodávamos, e caíamos novamente em sono profundo. Éramos o nosso alimento moral e espiritual. A existência passou a se mostrar suportável. Não me lembro de ter ficado ao menos uma vez em pé em sua presença. Era preguiçoso. Ainda sou.
Tardou em aparecer de novo uma semana, ou duas, quem sabe. Voltou ferido. Voo rasante, descontrolado. Não pousou, mas sim, se estatelou ao meu lado. Os urubus não cantam, crocitam. Som estridente vinculado a uma dor interminável. Arquejava. Devia querer pedir desculpas pela fragilidade. Tentava agir de forma cotidiana, se relacionar normalmente, como das outras vezes. Não era possível. Um movimento repetitivo do crânio. Por conviver tanto com a morte devia saber que eram os seus últimos instantes. As penas se mostravam ressecadas de um lado e banhadas de sangue do outro, onde as costelas, se é que posso chamar assim, haviam sido violentadas talvez pelos companheiros, bicadas agressivamente não por alguns, mas por muitos. Havia sido vítima do seu descaso. Traído simplesmente por se afastar do convívio com os seus semelhantes em prol da paixão. O sofrimento é coisa interna, e para quem olha de fora só resta a impotência por não saber como agir. Tive inveja por um instante, queria eu estar em seu lugar. Da órbita o olho havia saltado e, por isso, certamente por não ter mais controle, ficava cravado nos meus pela primeira vez. Exigia o meu perdão de forma inconteste, e eu cedi, improvisando como um padre a extrema-unção, mesmo sendo um homem pagão. Com suas derradeiras energias passou a se violentar na região do esterno, querendo deixar expostas as vísceras como se quisesse oferecê-las a mim. Logo, morreu. Nenhuma lágrima desperdicei. Sentiria saudades, é verdade, mas nada mais. Sabe lá Deus o que fiz com aquela carcaça. Ainda sinto o gosto em minha boca desta paixão.
Da paixão de agora, incansável ruído. Chiado que consigo conviver, que não se faz insuportável, porque ainda é chiado baixinho, mas se faz retumbante no cheiro que fica debaixo do braço por causa da longa caminhada, prolixa, que desperdiça água, ar, porque é longa, é cheiro de braço, pois colher flores é assim: ruim. O cheiro da flor anulado, pois o braço é quem a dá, mas o cheiro do braço é quem vai. . .ruim. Colher é isso: nariz inflamado de cheiro, ardência de juízo, cutucão no baço, e cheiro ruim. Não posso me valer de uma paixão normal, pois do seio coberto de baba, quando o sugo, não experimento o leite, artefato de mãe, mas o gozo, oferenda das putas, devassidão dos dias de baile. Eu ofereci flores que apanhei por aí para a criatura, tentando chegar próximo ao sentido das exéquias. Ofereci flores, que paixão estranha essa minha.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Cia. de Teatro Antro Exposto vai ao Rio de Janeiro


quinta-feira, 14 de maio de 2009
Novo blog de Patrícia Cividanes
http://patriciacividanes.blogspot.com/
Imperdível!
domingo, 26 de abril de 2009
Ensaio da pena na miséria daquilo que eu não sei contar
E da matéria que beneficia a vida só se pode dizer que ela é feita de raiva. O homem do subsolo, de Dostoiévski, toma meu punho e, não só isso, ele mesmo escolhe as cores que o mundo oferece aos meus olhos. Como que tocado pelo veneno dos malditos, dos sóbrios, não posso mais resgatar a infância perdida, não posso dizer de mim homem feito, pois sou o sonho de um homem ridículo. Ao estender a mão num gesto de ajuda, não faço senão desviá-lo num movimento vazio, para poder espalhar a minha cólera e não perder a piada com o sujeito caído de quatro, no meio-fio, suplicando atenção. O sentido profundo que vemos em viver na quietude, de maneira amena, já não posso experimentar. Por caminhos obscuros estraguei ao máximo o sorriso daqueles que verdadeiramente poderiam ser felizes, e fiz por pura diversão, confessando aos urros de alegria o meu crime. As teorias deste homem do subsolo começam a transcender a esfera da reflexão para direcionar as minhas atitudes, a minha convivência com o outro. E no momento do escárnio, quando olho uma criatura e o meu cuspe se projeta em desdém, o que sinto não é prazer, orgulho. O que sinto é vergonha. Fui tomado por um mal que expande a minha consciência, liberta em volúpia meus sentimentos, mas que na hora de se voltar a mim, me acalentar, me nega todos os benefícios.
Aí vai então um caso, que não é sobre a neve molhada:
Num repente a menina pegou o prato com a comida fervilhando e correu para o banheiro dos fundos. Os familiares se olharam perplexos com o arrojo da criança até então um patinho morto, de tão quietinha e dócil. Mas a decisão estava tomada: a partir de então só faria as refeições em tal ambiente, com uma ressalva particular: para que a sua cerimônia pessoal se completasse ela deveria suceder a hora da “Solidão do Pai”, ou seja, momento em que o patriarca se isolava nos fundos da casa para satisfazer as suas necessidades intestinais que, fato curioso, aconteciam antes e não depois da ceia. Os protestos eram contundentes, mas a determinação da menina tinha lá os seus fundamentos. Mesmo que ela não conseguisse expressar em palavras suas atitudes, por não conseguir interpretá-las, o seu íntimo se encarregava de mostrar suas razões. Era por prazer. Não se sabe como nem onde a menina adquirira o gosto pela mistura improvável entre o começo e o fim do processo alimentar. . . Que bobagem. . . Não posso continuar. Redenção aos Malones, de Beckett.
Se por um lado o homem direto, de ação, se limita à conformidade das ciências estabelecidas e, por outro, o homem do subsolo, movido pela raiva, segue as suas vontades independentes e sente prazer por isso, eu já não posso nem seguir as minhas vontades nem as da ciência! Entendam a minha situação: não pude passar impune pelo subsolo, e já não consigo produzir as minhas próprias atitudes.
A passos curtos só enxergo as fezes dos animais, as calçadas em escombros, o óleo ressecado do suor dos passantes, a lama, a lama, os pelos, os ácidos, o que sobrou de uma agonia debruçada. A hecatombe mundial entope os bueiros, e o limite da penúria está estraçalhado junto aos pedaços dos meus mortos. Pude ir mais longe do que a carne. Rascunhei no abrigo da minha esperança a imagem de um deus pacificador para desprezá-la com a minha vergonha. Segui, de qualquer maneira, arranhando toda a graça, deixando de lado o sabor, pervertendo a dúvida. . . Como descrever?
A memória está mesmo degradada, ela se confunde e se engana. A invenção sempre rouba o lugar da realidade. O melhor para tantas memórias é enfim escrevê-las por vaidade, para dar um ar pomposo aos acontecimentos. Além do mais, que os meus sentimentos sejam assim abandonados. Escrevamos, então! Feito artistas que tentam verter estética e estilo. Feito eles que se reconhecem em nobre condição: são uns idiotas. Isolados num subsolo para receber em troca somente a falta de ar, a solidão. Deve-se encontrar o prazer em sentir fome, mesmo sabendo que a comida não estará na jaula nos próximos instantes. O prazer em saber que ali, enjaulado, é justamente essa fome, essa magreza que o público deseja ver. A estranheza. . . Eu revelaria algumas memórias, mas, quanto a isso, não me assemelharei ao subsolo, não posso.
Outro:
Definira o velho professor em tom quase confessional: “Na ficção, quanto mais verdadeiro você for a ponto de descobrir e se assustar com as próprias verdades, a ponto de se consolar dizendo que aquilo que se escreve tem o subterfúgio de se chamar “ficção”, mais próximo você estará de passagens que dilaceram o espírito”. Ao ouvi-lo, o jovem aluno apaixonado pelas descobertas literárias reteve sua grave emoção, apesar de ter deixado escapar uma lágrima, que só foi percebida quando ela roçou a comissura dos lábios revelando-lhe seu gosto. Mais tarde, justamente por experimentar a baixa e a alta literatura, descobriria que as declarações espontâneas do professor tinham sido tiradas de qualquer manual de quinta categoria. . . Não. . .
O definitivo é falar de si, e a decisão está tomada.
A doença, como sabemos, não foi diagnosticada. Ela vai crescendo escondida. Ela não é o motivo principal de nada. Pouco importa se a raiva provém da doença, ou se a doença define o caráter da raiva. O que me restava do “amor suave” hoje dá passagem a qualquer coisa, não sei... Bobagem, bobagem.
terça-feira, 24 de março de 2009
Complexo Sistema de Enfraquecimento da Sensibilidade no Festival de Curitiba
Críticas e entrevista:
Não se sai indiferente com a Cia. Antro Exposto - por Valmir Santos
http://festivaldecuritiba.blogspot.com/2009/03/nao-se-sai-indiferente-com-cia-antro.html
Indicado para fãs de Gerald Thomas - por Rober Machado
http://www.curitibainterativa.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=16875
Blog do Caderno G - por Luciana Romagnolli
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/blog/blogdocadernog/?id=870038
Festival - TV (entrevista em vídeo)
http://www.youtube.com/watch?v=mi5ybPwRpOg
sexta-feira, 13 de março de 2009
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Sobre os trilhos da estação
O ser humano pode caminhar sobre esses trilhos, e como indivíduo, entre o equilíbrio e a incerteza, diante de um coletivo pesado e grosseiro, só pode se reconhecer nesse caminhar. A firmeza e a força de um movimento mais certeiro devem compensar a delicadeza demasiada de um passo comedido. A respiração deve manter uma correspondência autêntica com cada movimento, para não influenciar de maneira negativa na realização do gesto. O olhar deve se alternar entre o chão próximo e o horizonte infinito, de acordo com a necessidade de se saber caminhando. Forma e conteúdo, portanto, devem se confundir numa coreografia presente e espontânea. Para se manter em cima do trilho, um organismo só pode se comportar como tal, como coisa viva, reagindo a todas as leis que o universo impõe. A coisa morta que anda só pode ser a máquina, e sua estrutura é previsível e definitiva, correta e sequencial.
A tendência parece mesmo ser a do reconhecimento de que o mundo tenta se fixar em suas tradições. Desde o nosso nascimento somos envolvidos por leis sócio-culturais, e nos rendemos a elas. A trajetória que vivenciamos no mundo se apresenta de forma estabelecida, e é subjugada pelos mecanismos familiares, comunitários ou governamentais. A dependência que temos na formação de nossos pensamentos nos leva a um repertório que se molda de acordo com a nossa “vizinhança intelectual”, que é repetitiva e passiva. O desafio é romper com a previsibilidade que a vida nos oferece em alguns sentidos, portanto, não é a comunhão entre o trem e o trilho que devemos buscar, pois ela não existe.
Existem elementos que são reconhecíveis à primeira vista no trem: sua força e capacidade. A quantidade de cargas e passageiros pode ser realmente assustadora, e o seu deslocamento pode até parecer arrastado e pesado, mas em nenhum momento duvidamos do seu desempenho. Ele é a própria fortaleza que se desloca à custa do carvão que queima heroicamente em seu sistema. As válvulas, parafusos e alavancas se comunicam para dar voz a um movimento mecânico e repetitivo, sem vida e vulgar. É inegável a sua constância, mas é justamente aí que mora a sua banalidade. É a própria alegoria de um coletivo social que dentro das suas estruturas repetitivas atravessa a existência com brutalidade, inexoravelmente. Então, se tirarmos os trilhos, todas as suas características significativas se perdem e passam a ser inúteis. O que é um trem sem os trilhos? Um amontoado de ferro esquecido em algum canto.
Já o trilho, em sua poética, mesmo na falta de um trem, pode servir de plataforma para os nossos devaneios. Os trilhos não podem fugir da sua condição solitária, então se prestam à representação do indivíduo diante da sua experiência no mundo. Eles são a nossa imitação, e oferecem para nós, que somos coisas vivas, todas as possibilidades de recriação no que diz respeito ao deslocamento, mesmo tendo o seu caminho estabelecido. Não temos outro motivo para subirmos no trilho senão pela poesia. É inquestionável a sua atração, pois ele nos envolve e sensibiliza. E assim, o nosso impulso mais genuíno é nos entregarmos à aventura de deslizar passo a passo, sabendo que sobre os trilhos o chão se perde. Vivenciamos o perigo de um abismo onde a queda é mortal, onde o sabor de viver se justifica no risco evidente: negar a movimentação é sucumbir à gravidade, à existência; projetar o corpo em busca do devaneio poético do movimento é assumir a incerteza do próximo passo. Fazemos o papel de um trem, mas agora, com a graça e a leveza que ele nunca pôde ter. Se a imaginação desregrada pode estar vinculada a uma perspectiva de liberdade, o trilho a faz existir em sua plenitude.
A morada da “poética dos trilhos” só pode mesmo ser a imaginação. Eis a miséria entre nós e os trilhos: o homem sempre soube que a distância deve ser vencida, e sem o trem, a única distância que transcendemos é a do imaginário perante o real, a partir de uma perspectiva individual. A poesia não pode ser objetiva. O homem espera o momento de abandonar os trilhos para dar passagem ao trem, e quem sabe até nele embarcar, já que isso é necessário, mesmo sabendo que não terá a garantia da liberdade. Porque somente em contato com estas “estruturas definitivas e reais” nós podemos imaginar. O trem também nasceu da imaginação, ele só não se presta a uma “imaginação poética”, infinita e viva.
Para experimentar a liberdade da imaginação deve-se pagar o preço de vivê-la, e abandoná-la.
As certezas e os paradoxos entre o trem e o coletivo, entre o trilho e o indivíduo vão habitando nossa sondagem filosófica, poética e imaginária. Devemos persistir no tema. O indivíduo se reafirma na imaginação, fazendo dela seu refúgio contra todas as certezas do mundo. Nós termos os trilhos como fator poético imprescindível dentro do nosso ser nos redime da marginalidade que a solidão criativa do indivíduo sofre. Sabermos lidar com o coletivo que padroniza, para assim nos aproximarmos de uma existência em concordância com a poesia, com o imaginar, nos coloca como inventores daquilo que existe ao nosso redor.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Os males da crise
Se o sentimento de repúdio ao outro, ao estrangeiro, está vinculado ao caos econômico é porque agora encontramos mais uma bandeira para justificá-lo, pois ele sempre existiu. Dado recente que confirma isso foi o pacote anti-imigração lançado pelo premiê italiano Silvio Berlusconi, em setembro, meses antes do início da crise. A pressão do Vaticano foi grande e nada foi aprovado. Mas o imbróglio não parou por aí. Os médicos, aqueles responsáveis pela nossa saúde, se Berlusconi levar a cabo seus planos, terão o poder de delatar pacientes estrangeiros com situação irregular na Itália. O sujeito moribundo aparece reclamando cuidados médicos e leva um belo pontapé na bunda, se é que ele vai aparecer para realizar sua consulta. E qual o resultado? Ou o estrangeiro desafia os males que o assombram, esperando que eles se curem naturalmente, ou ele testa a boa vontade do profissional da saúde.
Até então, todo esse tipo de horror poderia existir apenas nas profundezas dos nossos sentimentos preconceituosos - agora ganha fomento do Estado. Greves anti-imigração são organizadas, e crimes passam a ser ensaiados. Ao largo da discussão que questiona se é verossímil ou não as declarações da brasileira Paula Oliveira na Suíça, o fato é que o contexto das relações entre o nativo e o estrangeiro torna possível qualquer manifestação desse tipo.
O ciclo de recriação do capitalismo necessariamente cria fortalezas que buscam a sobrevivência em si mesmas, excluindo os que tentam ingressar em seus sistemas.
O primeiro passo do operário é ver com olhos hostis o colega que provém de outra nacionalidade. Se seu desejo fosse realizado (como vem sendo), e operários estrangeiros perdessem seus empregos, isso seria superficial e efêmero para resolver o problema. Todos os dados indicam que a situação do desemprego tende a piorar, então, depois de liquidar os estrangeiros que as fábricas abrigam a concorrência se voltaria aos semelhantes. A garantia do meu emprego depende do desemprego do outro, mesmo se este outro for do mesmo país que eu. As medidas protecionistas tendem a isolar cada vez mais determinados seguimentos da sociedade, e a tal fortaleza deixa de ser a União Europeia, deixa de ser a Itália, e passa a ser os nichos daqueles que detém o poder. A xenofobia é a porta de entrada para o próprio caos daqueles que a incentivam.
No mundo oriental, por vezes, a justificativa para o racismo não precisa ser somente a instabilidade da economia. Ela se funda também na religião, na cultura e nos interesses políticos que vão além das relações econômicas. E se nós, no Brasil, acreditamos que a xenofobia passa longe dos nossos preconceitos é porque nos julgamos livres desses tipos de males, e ignoramos o nosso racismo crônico. Nos escondemos atrás de times de futebol para dar vazão a um ódio que, mesmo não sendo xenofobia, é pura aversão ao outro. Nos escondemos também atrás de classes sociais, opções sexuais e credos. Outro exemplo neste sentido: ao andar pelas ruas com os ouvidos atentos, ouvi a declaração de um negro: “Quem ele pensa que é para me chamar de preto? Ele é muito mais preto do que eu”. Pouco importa as definições, se o preconceito é com o estrangeiro ou com o vizinho, a questão é que o sentimento é o mesmo, e a única maneira que encontramos para alcançar a superioridade é a agressão generalizada.
Devemos sim assumir posicionamentos. Até onde eu sei, não há mal algum em escolhermos um lado. Mas a radicalidade com que nós defendemos nossos ideais, sejam eles quais forem, deve ser limitada à plena existência do outro, e submetida ao debate social. O que acrescentar ao debate sobre a xenofobia, o preconceito, o racismo? Não sei. Se essas questões são inerentes ao ser humano, as soluções são mais complexas. Talvez, assumir e denunciar a sua existência possa ser a nossa contribuição.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Há de se ter fôlego
Não é simplesmente voltar a São Paulo, desfazer as malas, juntar a pilha de jornais acumulados na porta e seguir com a vida. Tampouco é arrumar as velhas gavetas com tantas ideias perdidas e desarranjadas. Mais do que isso, há de se resgatar na memória as desilusões, os caminhos percorridos e as certezas de boas escolhas do ano que se foi, para assim, tentar reinventá-las em 2009. Colocar novamente os pés sobre as funções que exercemos no mundo, e assim engatar um novo ano, é questionarmos se elas de fato têm alguma relevância ou se podem engendrar algo que seja genuíno e duradouro. O que fazemos, afinal?
Então, mais um ano se foi. Dos desesperados aprendi que posso me tornar um deles, antes mesmo de pestanejar. Os desesperados de Gaza, de Israel, do Sudão, do Zimbábue, do Tibete, do Irã. De onde mais? A lista é grande. A política segue a passos curtos, de criança que está aprendendo a andar, e sua questão continua sendo protocolar e pragmática, ou seja, pensamos e fazemos política no palanque, na hora de escrever um texto, ou no churrasco de domingo quando comentamos com os amigos que “os políticos são todos iguais”. Confesso: os jornais acumulados na porta, com todo o horror das fotos das crianças mortas em Gaza, ou das pessoas em Israel, passaram a tocar a minha embotada sensibilidade apenas neste meu regresso, e não no meio das minhas doces e alienadas férias. Com você foi diferente? Seja rigoroso em sua resposta. Mas, enfim, o ano começa, este blog deve seguir, e por trás da boa vontade deste texto existe a canalhice de só se pensar o mundo quando as vestes do bom cidadão reflexivo estão bem passadas e confortáveis no corpo. O Obama no Havaí, eu, sem piada, no Paraguai, e ambos sem pensar na dor alheia. Que descaso o nosso, que pretensão a minha.
Os guias culturais já começam a se encher de shows, exposições, espetáculos e filmes e livros e debates e o que mais? Sim, a lista também é grande, e essa talvez deva ser mesmo. O pessoal do teatro vai continuar fazendo teatro para o pessoal do teatro, ou, no máximo, para os amigos. Outra promessa para 2009: seguiremos com as nossas confusões, contradições e incoerências, e para os que se colocam à margem da sociedade para refleti-la, aí vem mais um bom ano de discursos efêmeros, que no final das contas não modificam nada.
E se tem que ser assim, assim será, já que o que nos resta é continuarmos fazendo com a determinação que nos é necessária. Mas de qualquer maneira, vida longa aos teatros vazios ou cheios, e para estes tantos blogs que, na falta de ideias, ficam lamentando o inevitável.
Insisto na pergunta: o que fazemos, afinal? Como fazemos?
Um pequeno exemplo tirado das férias. No meio do mato, o estado do caçador é bruto. Os seus gestos têm que ser precisos. As ações de sua caçada devem ser de um comprometimento total com o seu objetivo, pois delas depende a sua sobrevivência. Tirem suas próprias conclusões.
Os que fazem guerra fazem amor também. O mundo é plural, e o bem e o mal, ou o mau e o bom estão muito mais atrelados do que pensamos, causando sentenças errôneas e confusões. Um é professor, outro é corretor de imóveis, outro cientista, aquele é um político honesto, este um artista mentiroso, e aqui e acolá cada um deveria contribuir à sua maneira. Talvez seja exatamente isto o que fazemos: jogamos nossas flores para Iemanjá, anotamos no caderno os nossos desejos de paz e prosperidade, pedimos em orações pelos nossos filhos, um irmão, e quando a segunda-feira vem implacável somos vencidos pelo nosso próprio descaso e descomprometimento.
Desta margem aqui já não consigo enxergar o outro lado, mas sei que ele só pode estar ali. Eu já puxei bastante ar para aguentar a travessia, e na minha incapacidade de fazer planos descobri que só queimando o jardim das nossas certezas, e só desconstruindo ao máximo a bela imagem que fazemos de nós mesmos podemos falar em um ano melhor. E no mais, no meio de guerras, presidentes, atentados à vida, crises financeiras, amores e ódios, aí vai a única questão importante para nossa idiota condição: tem como alguém avisar o nosso velho Word que a palavra “ideia” mudou de cara, e a palavra “tranquilo” finalmente saiu do armário para assumir o que ela sempre foi?
Feliz 2009













